Mais uma batalha do Araguaia


Para coisas tolas, muita atenção. Para temas importantes, o vácuo. Quase nada se leu ou se viu na mídia brasileira sobre a histórica sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) que condenou o Brasil pelos desaparecimentos naGuerrilha do Araguaia. Em 24/nov, o Tribunal das Américas concluiu que o Brasil é responsável pelo desaparecimento forçado de 62 pessoas entre os anos de 1972 e 1974, na região do Araguaia. Não foi a primeira vez. O Brasil já é, digamos assim, freguês do tribunal. Veja o nosso histórico de condenações:

  1. CASO DAMIÃO XIMENES LOPES
    (caso Ximenes Lopes vs. Brasil). No primeiro processo que resultou em condenação, estava em discussão o direito à integridade física e psíquica da pessoa humana. Em nov/1999, o paciente psiquiátrico Damião Ximenes Lopes foi torturado e morto na Casa de Repouso Guararapes, clínica conveniada ao SUS, na cidade de Sobral/CE. Na Sentença de jul/2006, a Corte Interamericana condenou o Brasil a indenizar os familiares da vítima e a levar a julgamento os responsáveis pelo crime. Em 2007, a União cumpriu a obrigação de
    indenizar e autorizou o pagamento de R$250 mil à família da vítima. Em 2009, a Justiça estadual cearense condenou os seis responsáveis pelo crime de maus tratos (art. 136, §2º, do CP), entre eles médicos e enfermeiros, a penas de 6 anos de reclusão.
  2. CASO SÉTIMO GARIBALDI (caso Garibaldi vs. Brasil). Em set/2009, veio a segunda condenação do Brasil. Estavam em questão o direito à vida e os deveres estatais de persecução criminal e de prestação jurisdicional em tempo razoável. Em nov/1998, o trabalhador rural Sétimo Garibaldi foi morto por pistoleiros encapuzados num acampamento do MST na Fazenda São Francisco no município de Querência do Norte, na comarca de Loanda/PR. O suposto mandante e os alegados executores do crime não foram processados pelo Ministério Público do Estado do Paraná, que promoveu o arquivamento do inquérito policial em 2004, o que foi aceito pela juíza de Direito Elizabeth Kather. Em 2003, as ongs Terra de Direitos e Justiça Global, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e a Rede Nacional de Advogados Populares (RENAP) denunciaram o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). O Decreto
    7.307/2010 determinou que a SEDH/PR providenciasse o pagamento de indenização à família de Garibaldi em cumprimento à sentença. A CIDH também ordenou a conclusão do inquérito e a responsabilização dos servidores públicos que conduziram a apuração inicial.
  3. CASO DAS ESCUTAS CONTRA O MST (caso Escher e outros vs. Brasil). O objeto da Sentença de nov/2009 foi o direito à intimidade e ao devido processo legal e resultou na terceira condenação do País pela CIDH. Um major da Polícia Militar do Paraná solicitou à juíza Elizabeth Kather, da comarca de Loanda, a interceptação de terminais telefônicos utilizados por uma cooperativa de trabalhadores rurais ligados ao MST. As escutas, que duraram 49 dias, teriam sido realizadas sem o cumprimento dos requisitos do art. 5º, inciso XII, da Constituição e da Lei 9.296/96. Em 2000, o MST, a Justiça Global, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a ong Terra de Direitos e a Rede Nacional de Advogados Populares (RENAP) levaram o fato ao conhecimento da Comissão Interamericana, que, por sua vez, submeteu o caso à Corte. A CIDH considerou o Estado brasileiro culpado pela instalação dos grampos, pela divulgação ilegal das gravações e pela impunidade dos responsáveis pela sua implantação.
  4. CASO DA GUERRILHA DO ARAGUAIA (caso Gomes Lund e outros vs. Brasil). Na Sentença de 4/nov/2010, a quarta condenação, a CIDH considerou o Estado brasileiro culpado pelas mortes e desaparecimentos ocorridos na região do Bico do Papagaio, nas divisas do Maranhão, Pará e Tocantins nos anos 1970 tendo como vítimas militantes do PCdoB. O Brasil também foi punido por denegação de Justiça. O processo na Comissão Interamericana originou-se em 1995 por iniciativa do Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL) e pela Human Rights Watch/Americas e foi submetido à Corte em 2009.

O Sistema Interamericano de Direitos Humanos

A Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) tem sede em San José, na Costa Rica, e é o órgão máximo do sistema interamericano de proteção aos direitos humanos. Outro organismo relevante desse sistema regional é a Comissão Interamericana, que funciona em Washington, D.C. Estes dois entes são vinculados à Organização dos Estados Americanos (OEA), investigam violações de direitos fundamentais, interpretam e aplicam a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (CADH), também conhecida como Pacto de São José da Costa Rica de 1969. Cabe à Comissão receber notícias de violações no continente e examinar a admissibilidade dos casos que serão submetidos a julgamento pela Corte. Pessoas naturais não podem processar diretamente Estados nacionais perante a Corte Interamericana. A Convenção foi ratificada pelo Brasil e entrou em vigor interno por força do Decreto n. 678, de 1992.


Desde 2002, com base no Decreto 4.463/2002 e no art. 62.1 da CADH, o Brasil passou a reconhecer a jurisdição obrigatória da CIDH, o que significa que o País deve cumprir as decisões da Corte sem pestanejar, inclusive as obrigações de fazer que resultem de suas sentenças:

“Art. 1º. É reconhecida como obrigatória, de pleno direito e por prazo indeterminado, a competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos em todos os casos relativos à interpretação ou aplicação da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José), de 22 de novembro de 1969, de acordo com art. 62 da citada Convenção, sob reserva de reciprocidade e para fatos posteriores a 10 de dezembro de 1998.” 

A data de 10/dez/1998 não é aleatória. Foi naquele dia que ocorreu o depósito da declaração unilateral brasileira de reconhecimento da jurisdição da Corte, evento que passou a servir como marco inicial da incidência dessa regra em relação ao Brasil. Os fatos anteriores a dez/1998 não podem ser julgados pela CIDH em relação ao Brasil.  

Sentença da CIDH no caso Araguaia

Pois bem, no caso da Guerrilha do Araguaia (conhecido na Corte como caso Gomes Lund e outros vs. Brasil), o Estado brasileiro foi condenado na Parte XII da Sentença, entre outras coisas, a:

  1. Indenizar os familiares das vítimas, considerados desaparecidos políticos;
  2. Realizar a persecução criminal dos autores dos crimes cometidos no Araguaia, conforme o §9 do dispositivo;
  3. Localizar e identificar as vítimas ou seus restos mortais;
  4. Permitir o acesso aos arquivos históricos e a divulgação de suas informações;
  5. Oficializar o pedido de desculpas internacional do Brasil pelas violações em ato solene;
  6. Dar publicidade à sentença da CIDH na mídia nacional e no D.O.U, etc.

Como se trata de crimes praticados por servidores públicos federais ou por indivíduos sob o comando de forças federais, a competência para a processo penal é da Justiça Federal (art. 109, inciso IV, da Constituição). Teoricamente, terão ocorrido crimes de homicídio, maus tratos e sequestro, previstos nos arts. 121, 136 e 148 do CP. Na época dos fatos (anos setenta), não estava tipificado no Brasil o crime de tortura, o que só veio a ocorrer com a Lei 9.455/97.

 
 
 

Corte Interamericana em San José, Costa Rica

Problemas a vista

Mais uma batalha na Guerrilha do Araguaia. Agora a questão é saber quem decide por último: a CIDH ou o STF? Em 29/abr/2010, por 7 x 2, o STF julgou que a Lei de Anistia (Lei 6.683/79) é constitucional. O tema foi objeto da ADPF 153/DF, proposta pelo Conselho Federal da OAB, tendo como relator o ministro Eros Grau. A lei de 1979 anistiou os autores de crimes políticos ou conexos praticados no período compreendido entre 2/set/1961 e 15/ago/1979. Logo, para o STF, os crimes da Ditadura (1964-1985) cometidos antes daquela data (ago/1979) não podem ser objeto de persecução criminal. Ainda que pudessem sê-lo, todos eles já teriam sido atingidos pela prescrição da pretensão punitiva. Nos termos do art. 109 do Código Penal todos os delitos prescrevem em no máximo 20 anos. Segundo a Constituição, apenas o racismo e a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático são imprescritíveis (art. 5º, inciso XLII e XLIV, CF). Por isto, uma série de dúvidas surgem:

  1. Diante da Sentença da CIDH no caso Araguaia, o Ministério Público Federal poderá propor ações penais contra os agentes do Estado responsáveis pelos crimes da repressão? O presidente do STF, ministro Cezar Peluso, disse expressamente que qualquer iniciativa neste sentido será barrada por habeas corpus em razão da recepção da Lei de Anistia. O ministro Marco Aurélio manifestou-se no mesmo tom.
  2. O MPF poderá propor tais ações penais independentemente de previsão legislativa do Congresso Nacional? Parece razoável que o Poder Legislativo legisle sobre o tema para dar efetividade à decisão da CIDH, inclusive sobre a forma de revisão de decisões judiciais com base em julgados da CIDH. O próprio STF admitiu essa possibilidade no item 8 do acórdão na ADPF 153/DF: “8. Revisão de lei de anistia, se mudanças do tempo e da sociedade a impuserem, haverá -ou não – de ser feita pelo Poder Legislativo, não pelo Poder Judiciário“. Ademais, a CIDH determinou que o País tipifique o crime de desaparecimento forçado de pessoas (cf. §109 da Sentença).
  3. Como fica o princípio da anterioridade da lei penal (art. 5º, XXXXIX, CF)? A resposta parece estar no §15 da Parte XII da Sentença, que determina a utilização de tipos penais existentes para punição por desaparecimento forçado, o que sugere a incidência dos tipos penais de sequestro (art. 148 do CP) e ocultação de cadáver (art. 211 do CP).
  4. De igual modo, como se resolverá a questão da prescrição da pretensão punitiva? A decisão do STF no caso Manuel Cordero Piacentini (STF, Pleno, Extradição 974, rel. para o acórdão, Ricardo Lewandowski, j. ago/2009) (veja aqui), que foi extraditado para a Argentina, sob a alegação de sequestro de menor praticado em 1976, durante a ditadura militar no país vizinho, pode servir de suporte jurídico à persecução penal no Brasil. É que, nos crimes permanentes como o sequestro, a prescrição começa a contar da data da cessação da permanência (art. 111, inciso III, do CP), o que, em relação aos desaparecidos no Araguaia teoricamente ainda não se deu.
  5. Se o MPF, o Judiciário e o Congresso Nacional não agirem, quais as consequências para o Brasil diante da CIDH? Muito provavelmente, o Brasil será condenado mais uma vez por denegação de Justiça, em face de eventual descumprimento do dever internacional de persecução criminal. Em tese, os servidores públicos renitentes poderão ser processados regressivamente pela União (AGU).
  6. O Brasil só reconhece a jurisdição obrigatória da CIDH para fatos posteriores a 10/dez/1998. Os eventos do Araguaia são dos anos 1970. Isto impedirá a atuação da Justiça criminal brasileira? Não, pois não cessou a permanência dos crimes de sequestro contra os 62 desaparecidos. A execução de tais crimes se protraiu no tempo, para além de dez/1998 e perdura até hoje, o que autoriza a intervenção da CIDH.
  7. De quem será a competência para julgamento de tais crimes? Da Justiça Militar da União, como parece decorrer da interpretação do art. 109, inciso IV, da Constituição? Ou da Justiça Federal, como indica a CIDH ao apontar a necessidade de julgamento pela “justiça ordinária”? Parte da solução pode ser retirada da decisão do ministro Celso de Mello no HC 106.171/AM, que limitou a competência da Justiça Militar para julgamento de civis, num raciocínio que pode ser estendido aos casos de crimes militares praticados contra civis.
  8. O Brasil ratificará a Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçado de Pessoas como determinou a CIDH no §287 da Sentença? Parece não haver outra solução. Melhor ainda se o País também aderir à Convenção das Nações Unidas sobre a Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e dos Crimes contra a Humanidade concluída em Nova Iorque, em 1968. Saiba mais aqui.
  9. A Convenção Americana de Direitos Humanos continuará a ser tratada pelo STF como norma supralegal mas infraconstitucional (STF, Pleno, RE 466.343/SP, rel. min. Cezar Peluso, j. 3/12/2008) ou terá reconhecido o seu status de norma materialmente constitucional com base no art. 5º, §2º, da CF? A profa. Flávia Piovesan defende esta solução há muito tempo, mesmo antes da EC 45/2004, que criou novas regras para a integração normativa de tratados de direitos humanos.

Desta última questão dependem muitas das respostas às perguntas anteriores. De qualquer modo, mesmo que a CADH não seja recebida como norma constitucional, o STF não poderá eximir-se de cumpri-la. Não importa aqui se o Supremo Tribunal adota o monismo nacionalista (Wenzel) ou o internacionalista (Kelsen). Este último concebe uma ordem jurídica com duas vertentes (a nacional e a internacional) com superiodidade desta sobre aquela, sobretudo em função da supremacia das regras protetivas de direitos humanos (art. 4º, inciso II, CF), que são normas de jus cogens. Com uma perspectiva um pouco diversa, Peter Häberle defende a existência de um “Estado Constitucional Cooperativo”, que ignora o dilema sobre a primazia do direito constitucional ou do direito internacional, mas considera o efeito recíproco entre ambos para a formação da ordem jurídica. Atualmente, a posição do STF parece amoldar-se ao monismo nacionalista, que dá prevalência à ordem jurídica interna sobre o ordenamento internacional. Isto nos leva a indagar: o STF se sujeitará à decisão da CIDH?

Para a CIDH, a Lei de Anistia é incompatível com as obrigações internacionais assumidas pelo Brasil à luz da Convenção Americana, o que redunda em sua inconvencionalidade. Com base no direito internacional e em sua própria jurisprudência, a CIDH deliberou que as disposição da Lei de Anistia que impedem a persecução criminal das graves violação a direitos humanos ocorridas nos anos 1970 no Araguaia são incompatíveis com a Convenção e “carecem de efeitos jurídicos“, razão pela qual não pode continuar sendo obstáculo para a investigação dos crimes nem para a identificação e punição dos infratores. Ou seja, uma coisa é a Lei de Anistia ser constitucional (como disse o STF na ADPF 153/DF); outra coisa é ser convencional, o que não é (como disse a CIDH no §48 da Sentença do caso Gomes Lund e outros). Em entrevista publicada por O Estado de São Paulo nesta quinta-feira (28/dez), o ministro Cezar Peluso reafirmou sua posição contrária à revisão da decisão do STF sobre a Lei da Anistia:

OESP: O Brasil foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por não ter punido responsáveis por mortes na Guerrilha do Araguaia. Para o STF, os crimes estão anistiados. Como o senhor avalia isso?

Peluso: Há algumas coisas que são indiscutíveis. Primeiro: a Corte Interamericana não é instância revisora do STF. Eles não têm competência nem função de rever as decisões do STF. Nossa decisão no plano interno continua tão válida quanto antes. Morreu o assunto.

OESP: Como compatibilizar as decisões?

Peluso: Se o presidente da República resolver indenizar as famílias (de mortos durante a Guerrilha do Araguaia), não há problema. Mas se abrirem um processo contra qualquer um que o STF considerou anistiado, o tribunal mata o processo na hora.

Por sua vez, o ministro Marco Aurélio saiu-se com esta observação, no Estadão de 15/dez/2010: “É uma decisão que pode surtir efeito ao leigo no campo moral, mas não implica cassação da decisão do STF“. Disse-o talvez por esquecimento.

Seguramente o ministro sabe que na Europa todos os tribunais nacionais se submetem às decisões da Corte Europeia de Direitos Humanos, na aplicação da Convenção de 1959. De forma homóloga, é também o que se passa nas Américas, em relação à CADH de 1969.

Minha opinião: Argentina, Uruguai e Chile, cujos povos também foram submetidos a ditaduras sanguinárias e estão enfrentando seus passados, têm muito o que ensinar ao Brasil. A CIDH reconheceu o desaparecimento forçado de 62 pessoas e responsabilizou o Estado brasileiro. Tais vítimas foram sequestradas em 1976 e ainda não foram localizadas. Tendo em vista o caráter permanente do delito de sequestro, a Corte Interamericana tem competência para analisar esses desaparecimentos forçados, a partir do reconhecimento da competência contenciosa efetuada pelo Brasil, que se deu em dez/1998 (vide o §17 da Sentença). Esta solução é muito semelhante à que o próprio STF prestigiou no caso Manuel Cordero Piacentini (Extradição 974). Em ambos os processos, vemos claramente como o direito penal pode ser utilizado para a tutela de direitos humanos. Ao fim e ao cabo, é para isto que deve servir a lei penal: para proteger os bens jurídicos mais valiosos da pessoa humana e a vida em sociedade Conforme os §§149 a 171 da Sentença da CIDH no caso Araguaia, a persecução criminal por graves violações de direitos humanos não pode ser obstada por anistia, prescrição ou excludentes de culpabilidade, porque tais delitos violam “direitos inderrogáveis reconhecidos pelo Direito Internacional dos Direitos Humanos” no plano regional e
global e atos unilaterais de Estados membros da OEA. Aclarando ainda mais a extensão de sua memorável decisão, a CIDH dispôs (cf. §176 da Sentença):

“[…] quando um Estado é Parte de um tratado internacional, como a Convenção Americana, todos os seus órgãos, inclusive seus juízes, também estão submetidos àquele, o que os obriga a zelar para que os efeitos das disposições da Convenção não se vejam enfraquecidos pela aplicação de normas contrárias a seu objeto e finalidade, e que desde o início carecem de efeitos jurídicos. O Poder Judiciário, nesse sentido, está internacionalmente obrigado a exercer um “controle de convencionalidade” entre as normas internas e a Convenção Americana, evidentemente no marco de suas respectivas competências e das regulamentações processuais correspondentes. Nessa tarefa, o Poder Judiciário deve levar em conta não somente o tratado, mas também a interpretação que a ele conferiu a Corte Interamericana, intérprete última da Convenção Americana“.

Enfim, para bom entendedor um parágrafo basta. A importância do tema não admite voluntarismos dos ministros do Supremo Tribunal Federal, do tipo “não cumpro, não cumpro, não cumpro”. Nosso tribunal maior terá
de posicionar-se sobre a Lei da Anistia no tocante à sua convencionalidade (isto é, sua compatibilidade com a CADH), o que ainda não fez, porque este tema não foi objeto da ADPF 153/DF. Terá também de descer do pedestal, sob pena de o Brasil ver-se desmoralizado na comunidade internacional (afinal, pacta sunt servanda) e mais uma
vez condenado pela Corte Interamericana, desta feita por “rebeldia” dos juízes do Supremo, o que corresponderia a outra denegação de Justiça.

No sistema interamericano, em matéria de direitos humanos, a última palavra é da CIDH. Antes se dizia Roma locuta, causa finita. Agora a geografia jurídica é outra: se San José falou, o caso está encerrado. O tempo é de aprendizado para todos nós. Que nesse round decisivo nenhum dos dois tribunais saia nocauteado.



Categorias:Direito Internacional, Direito Processual Penal, Direitos Humanos, História

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14 respostas

  1. Eu concordo com a solução da prescrição! Mas difícil vai
    ser achar um torturador desse vivo ou que já não seja idoso e, se
    condenado, cumpriraá pouquissima pena! Acho que as indenizações são
    válidas, mas as condenações criminais só teriam um efeito simbólico
    que não vale a pena para a sociedade nem para o Estado. A
    condenação do Brasil deve ser cumprida em parte! A palavra ”
    retroatividade” é uma das mais temidas no direito, tanto pelos
    poderes do Estado quanto pelos jurisdicionados, tanto pra quem é de
    esquerda quanto pra é de direita! Essa palavra mexe com muita
    gente! E quando o STF mexe com muita gente, prefere ficar
    calado!

  2. Vladimir,
    Excelente e didático artigo sobre o caso Lund e suas repercussões técnico-jurídicas. Posso repercuti-lo no meu bloguinho (www.razaocritica.com)?
    Por que você não está no twitter?
    Abraço,
    Alberto

  3. ” justiça ? Verdade ? ou apenas egos mal alimentados ? ”

    Prezado articulista Boa Tarde.

    Seu artigo foi muito bem elaborado, bem alocado nos questionamentos. Tudo isso é mui elegante levando-se em conta uma situação. Mas voltemos o nosso olhar para o outro lado desta moeda “podre” que foi a “guerrilha do araguaia”. Falo como um cidadão comum , e nem sou da esfera juridica.

    Se nossa constituição , e nosso STF já disse que a lei já delineou acertos para os dois lados da “insanidade” que foi a “guerrilha do araguaia”, então por quais motivos ainda se insiste-se em “mexer” nestas feridas que já estão na poeira do tempo ?

    Que moral tem essa organização para se meter em assuntos que podem mexer com a nossa paz social ? Nós já não temos mui problemas suficientes para resolver-mos como : O exterminios dos nossos jovens pelas ações dos norcotraficantes ? ( sito este apenas como um ex. ). Na verdade já não está sendo “doado” valores públicos em favor dos “torturados e perseguidos ” ? Poxa o que os familiares destes querem realmente ? Seus entes de volta vivos ? Ora ..ora o que estas familias realmente pensavam que iam contecer com seus filhos e filhas, pais e mães ? achavam que o poder Federal foram LÁ NAS MATAS DO ARAGUAIA dar a ELES flores e bombons ?

    Sejamos sensatos e sóbrios, e vamos olhar para o futuro, houve uma guerra lá naquelas matas do araguaia. E sabemos que uma guerra por si só já é criminosa. Ali não tinha santinhos , havia de um lado GUERRILHEIROS versus SOLDADOS PROFISSIONAIS.
    É TRISTE SABER QUE HOUVE MORTOS , eram todos BRASILEIROS, mas que não se pode deixar de dizer é que : Estes guerrilheiros só receberam o que foram buscar.
    Ao invés de irem á luta armada por que não foram mudar “sistema vigente” de uma forma mais inteligente, ou seja através da “arma da informação “, nas universidades, nos debates estudantis, nos sindicatos, na sociedade organizada , e finalmente através do voto ? Por que à luta armada ? Só por que a INDOCHINA foi á luta de guerrilha ?, por que a China foi ? ( Se eles estivesem hoje em vida , veriam o que se transformou a China ).
    Quanto ao tema legal , creio que devamos deixar estes mortos em paz . Pois a Sociedade Brasileira quer assim , é melhor que fique assim. Estamos em um novo tempo , em busca de novas realizações, ficar esmiuçando “rancores revanchistas”, em nada vai nos ajudar a nos tornarmos uma GRANDE NAÇÃO.
    O BRASIL segue em PAZ SOCIAL (pelo menos de forma DEMOCRÁTICA busca e realiza ).
    Eu desejo paz do nosso BOM DEUS ao articulista e aos demais leitores.

    • Carlos, agradeço suas observações, compreendo suas preocupações com possível revanchismo e retribuo os votos de paz. Abs.

  4. Vlad, entendo que a solução para a celeuma só seria possível caso o STF tivesse decidido que a CIDH possui status constitucional, como sustenta Flávia Piovesan. Sendo a decisão da Corte Interamericana apenas supralegal (convencional) e a decisão do STF, por sua vez, amparada diretamente na Constituição, esta deve prevalecer. Diversamente do caso da prisão do depositário infiel, lá a norma constitucional na visão do STF dependeria de norma legal para produzir efeitos (que teve sua eficácia paralisada pela CIDH). Já a decisão da lei de anistia não foi amparada em nenhuma norma constitucional que dependesse de complemento legal (hipótese que a supralegalidade prevaleceria). Assim, não há como decisão supralegal prevalecer sobre decisão constitucional. Li recentemente um artigo que sustenta a predominância da decisão da corte de San José sob o argumento que seria possível uma decisão sera convencional e nao ser constitucional, porém ao meu juízo essa decisão convencional só prevaleceria em face de decisão constitucional que dependesse de complemento legal. A única análise legal em apreço é o objeto sub examine – lei de anistia – não a norma constitucional utilizada pelo STF para amparar sua constitucionalidade. Não digo que a decisão do STF foi acertada, mas nos termos atuais de suas decisões – supralegalidade da CIDH e constitucionalidade da lei de anistia – não há o que se fazer. Caso haja overruling e adoção da tese de Piovesan tudo fica mais fácil, pois o conflito de decisões seriam constitucionais. Vlad, salvo engano duas ordens jurídicas seria o dualismo, no monismo seria apenas uma ordem com prevalência ou do nacionalismo ou do internacionalismo. Abs. P.S: O post foi o melhor que já li sobre o assunto

    • 1. Hélio, vc sempre perspicaz e atento. Deixei mais claro o trecho sobre o monismo/dualismo. Estava confuso mesmo. Obrigado.
      2. Quanto ao ponto nodal do post, não vejo óbice para o reexame da Lei de Anistia (LA) de 1979 desta vez sob a ótica da convencionalidade. O STJ já disse que a LA/1979 é constitucional, mas não disse se ela é convencional. Tampouco examinou outros elementos de duvidosa constitucionalidade, como a flagrante incompatibilidade da LA com os arts. 1º, III, e 4º, II e IX, da CF. Isso sem falar no “jus cogens”. Sempre entendi correta a posição de Piovesan. Basta o art. 5º, §2º, da CF para a integração de textos de DH no mesmo patamar constitucional. Na verdade, a EC 45/2004, ao introduzir o §3º no art. 5º só tornou mais difícil a inserção de tratados internacionais de DH na ordem interna, por conta da exigência de um processo legislativo mais rigoroso, semelhante ao das emendas.
      3. E tem mais: a decisão do STF sobre a supralegalidade da CADH/1969 não me parece óbice suficiente para livrar o STF do cumprimento da Sentença no caso Araguaia, pois de novo, segundo o próprio tratado, somente a CIDH pode dizer o que a CADH é. Em outros termos, quem dá a última palavra sobre o status da Convenção é a própria Corte Interamericana, e não o STF. Este o meu enfoque. Abs.

  5. Oi, Vlad!

    Gostei muito deste post (aliás gosto de todos os seus posts, sou fã do seu blog). =D

    Esta recusa manifestada por dois ministros do STF em aceitar a plena eficácia da decisão do CIDH (embora ainda não possamos dizer que seja a posição definitiva do supremo) pode gerar consequências sérias no futuro, não apenas no campo jurídico, mas, sobretudo, no campo político, afinal o Brasil sujeitou-se voluntariamente à jurisdição daquela corte internacional.

    Vale lembrar que o Brasil passou recentemente por um sério incidente diplomático envolvendo o descumprimento de outro tratado internacional em direitos humanos, no caso do menino Sean Goldman. A continuar nesse ritmo, provavelmente nossa diplomacia será mundialmente encarada como o maior de todos os blefes.

    Só nos resta aguardar os próximos capítulos desta novela (quase) mexicana.

    Um grande abraço!

    • Obrigado, Alexandra! Sua análise é correta. A política externa do Brasil está meio complicada. Veja que nos damos bem com Cuba, Irã e Venezuela e estamos “criando caso” com a Itália. Abs.

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