A pensão da Dona Roxa


Nos começo dos anos 1990, muitas cidades do interior da Bahia não tinham promotor nem juiz. No concurso para o Ministério Público realizado em 1993, eu tinha duas opções: escolher lotação inicial em Maraú, na península de mesmo nome, perto de Itacaré, ou Utinga, na Chapada Diamantina setentrional (Piemonte da Diamantina) a 410 km de Salvador. Optei por Utinga, comarca recém instalada, composta pelo município homônimo, além de Wagner e Bonito. Fui o primeiro promotor residente e o juiz ficava na comarca de Rui Barbosa.

Bandeira de Utinga

Cheguei a Utinga em 4 de outubro de 1993, dia da feira livre local. A cidade estava uma confusão só, com várias ruas fechadas pelos comerciantes de produtos agrícolas e bancas de carne vendida sem refrigeração. Não era difícil achar a famosa cachaça Cabeceira do Rio, produzida a doze quilômetros dali.  Estava cansado, depois de sete horas de viagem por estrada esburacada (a BR-242 era lunar), e só queria achar um lugar para ficar. Fiz a peregrinação no meu novíssimo Voyage azul, ano 1984, que chegou inteiro ao destino, mas teve uns probleminhas com a suspensão e o cabo da embreagem. Com 22 anos, acabara de passar no concurso e J.R. se condoeu de minha situação e pegou a estrada comigo. Graças a Deus.

Os promotores da Chapada não tinham moleza. Não havia sede do Ministério Público em Utinga, comarca que acabara de ser instalada. A promotoria funcionava numa salinha sem ar-condicionado do Fórum Des. Jorge Fernandes Figueira, onde o mobiliário consistia de uma mesa de alumínio, duas cadeiras, um pequeno armário (vazio) e uma caneta Bic! O MP também não tinha funcionários. Ou seja, a instituição que se fortalecera em 1988, em Utinga se resumia a só “item”: eu. 

Como não havia casa do promotor na comarca nem imóveis habitáveis para alugar, me hospedei no melhor estabelecimento hoteleiro da cidade. Ficava atrás da igreja. O banheiro era coletivo e para as refeições tínhamos uma só mesa para todos. Os hóspedes costumeiros eram caixeiros viajantes, e os motoristas e cobradores da Viação Águia Branca, que fazia a linha para Salvador. Meu quartinho, logo na entrada da velha casa de adobe, não tinha forro. Se fosse classificado pela Embratur, o local mereceria um terço de uma estrela (cadente). Chama-se Hotel Farias, mas era conhecido como Pensão da Dona Roxa. Ela era uma figura folclórica da cidade, que conseguia fazer do seu hotel um lugar aconchegante. Passei momentos alegres lá, até que me mudei para uma casa alugada.

Seu filho Luizinho era meu companheiro de conversas nas noites calmas da Chapada. Certa feita, ele me segredou que lhe perguntaram se eu tinha um revólver. Nos anos 1990, os promotores já tinham porte de arma, um instrumento que já fora indispensável naquela região governada pelos coronéis do garimpo. Luizinho, com sua sabedoria, respondeu que eu não precisava de arma de fogo. E explicou: “a caneta daquele homem vale mais do que um 38“. Que bom se fosse verdade…

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6 comentários

  1. Um belo relato etnográfico: Humildade, perseverança e persistência. Por isso, meu metre, vc será pra sempre minha referência bibliográfica. Amoooo

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  2. […] Lembro bem o dia que ali cheguei: 4 de outubro de 1993. Dia de feira livre, ruas cheias, gente de todo o canto. Me ajeitei no único hotel decente que havia àquele tempo, o Hotel Farias. Na verdade todos o conheciam por Pensão da Dona Roxa. Era isso mesmo: uma pensão. Fiquei morando ali por uns meses. Já contei isto aqui. […]

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  3. Sou testemunha ocular das dificuldades que o jovem Promotor Vladimir passou, foram momentos turbulentos, mas a sua chegada trouxe alento aos menos favorecidos, Lembra-se das brigas do folclórico Quincas com Preto em seu gabinete.

    Eduardo Mota – ex-serventuario, hoje advogado.

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  4. Interessantíssimo relato, Dr. Vladimir, especialmente para aqueles que, como eu, almejam tão sonhadas “carreiras públicas” (no meu caso, o próprio MP)!
    Relatos assim servem principalmente para “humanizar” a figura do agente público que, por vezes, deixa de ter nome e passa a ser chamado pela função que exerce (“o juiz”, “o promotor”, “o delegado”…).
    Apesar de todos esses “pesares”, a vontade de se conquistar a carreira para a qual se acredita ter “vocação”, não obstante todas as dificuldades pelas quais se passa no início, conforme você bem expôs, é maior.
    Presenteie-nos com mais “causos” desses!

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